1- O TERMO GÓTICONossa viagem começa pela definição lingüística
desse termo, gótico é um adjetivo derivado da palavra latina “gotticus”
(século XIV).
Significa “aquilo que é relativo ou pertence aos Godos”. Godo por sua vez vem de “gothus”, uma antiga tribo germânica
que entre o século III e V invadiu os impérios ocidentais e orientais
da Europa, fundando reinos na Itália, França e Espanha. 1
2-AS ORIGENS HISTÓRICAS
Historicamente os Godos situam-se entre os povos bárbaros da linha dos
GERMANOS que invadiram progressivamente o Império Romano Ocidental, quebrando
no século V a antiga unidade da Europa.
Esta fixação de reinos bárbaros na Europa configurou-se
como a queda do Império Romano Ocidental (476), a data também
marca o início do período denominado como “Alta Idade
Média”. 2 O desenvolvimento cultural do povo Godo manifestou-se
através da escultura, pintura, música, literatura e sobre tudo
na Arquitetura, gerando o denominado “estilo gótico”
(apesar de ser considerada, por alguns críticos, como uma denominação
não precisa.) (século XII a XVI) Sucedendo-se ao estilo românico, a arquitetura gótica
caracteriza-se pelos arcos ogivais e as perspectivas verticais, sobre tudo nas
igrejas e catedrais.
Destaca-se neste estilo gótico as Catedrais de “Chartes, Reims
e Paris”.
Toda produção artística deste período ficaria marcada
pela profunda influência religiosa nas concepções do homem
medieval. 3
3-O GÓTICO E A RENASCENÇA
O denominado “estilo gótico” consolidou-se
entre o século XII e XVI, períodos que seriam visitados constantemente
pelas gerações futuras.
Durante a renascença (século XV e XVI) a paixão da fé
medieval e a visão carregada e melancólica do mundo foram substituídas
progressivamente pela inspiração no equilíbrio e na estética
da antiguidade clássica.
O gótico não desaparece do cenário europeu, a temática
funde-se a mitologia greco-romana e a valorização do homem levaria
ao racionalismo.
A Renascença consagraria o espírito crítico e o desenvolvimento
da racionalidade científica, opondo-se frontalmente aos dogmas absolutistas
da fé católica. 4
4-O ROMANTISMO DO SÉCULO XIX E O RESGATE DO
GÓTICO MEDIEVAL
No início do século XIX uma corrente de escritores e
artistas procuram se afastar das regras clássicas impostas pela visão
racionalista.
Rechaçando os valores da antiguidade clássica e o racionalismo,
o movimento valoriza a predominância da sensibilidade e da imaginação
sobre a razão. 5
No núcleo do romantismo, seja qual for a vertente visualizada, encontraremos
a vida sob um prisma caótico.
Explorando aspectos obscuros da alma humana os autores do romantismo questionam
as convenções sociais, desafiam os poderes estabelecidos, convidam
seus leitores a explorarem o lado menos agradável, mas não menos
real da vida em sociedade.
As influências dessa forma peculiar de visão necessariamente visitam
e revisitam o ambiente gótico medieval e irradia-se por obras de todos
os gêneros: o romance; o fantástico; o conto de terror e até
mesmo a ficção científica.
Os questionamentos do “eu” sobre a vida fazem-se presentes,
os personagens são introspectivos e sempre conversam muito consigo mesmos.
A expressão é uma regra que fornece contornos distintos às
coisas da vida, da morte e do além.
Entre nós, há uma forte inclinação pelos poetas
do ultra-romantismo (também chamado “mal do século”,
dentre os quais destacamos Álvares de Azevedo; Junqueira Freire;
Lourenço Rabelo; Casimiro de Abreu e o Pré-Modernista Augusto
dos Anjos.
5-ROMANCE GÓTICO: O EMBRIÃO
Se vasculharmos o século XIX o que não deixaremos de
encontrar são textos carregados com traços e influências
góticas, todavia, façamos aqui uma pequena referência a
algumas obras e autores de notória influência sobre as produções
culturais do século subseqüente e, consoante ao propósito
central desta curta abordagem.
Uma boa viagem por esta estrada começa por FRANKENSTEIN de Mary Shelley (1816).
Destaca-se pela polêmica em torno da transgressão da ordem natural
e divina, passando pela inexorável discriminação da estética
do horrível e a prematura discussão em torno das atuais experiências
genéticas. 6
Edgar Allan Poe dispensa maiores comentários: impossível
entender o que é gótico sem ler “A Queda da Casa de
Usher”; “O Corvo” e “O Poço
e o Pêndulo”. 7
Derradeiramente não podemos deixar de mencionar “Dracula”
de Bram Stoker, talvez o romance de maior influência até os
dias de hoje. 8
Para não ir longe demais, Dracula é o segundo personagem
mais filmado na história do cinema com 160 filmes, seguido por Jesus
Cristo na 3ª posição com 135 filmes e por Frankenstein na
4ª com 110.
Observa-se antecipadamente, que a influência do estilo gótico explodiria
com o surgimento do cinema no século XX.
6- OS GÓTICOS E A IDENTIFICAÇÃO
COM VAMPIROS
Dracula é genuinamente um romance gótico, todavia,
necessário se fez algumas considerações sobre a peculiar
identificação dos Góticos com o príncipe das Trevas.
O romance Dracula foi totalmente desenvolvido e aclimatado numa atmosfera
gótica, mas muito além disso, observa-se que o comportamento do
vampiro é a própria síntese do universo gótico.
Tal qual um vampiro, é na noite que os góticos desenvolvem o Máximo
de sua capacidade de expressão.
Dracula é essencialmente um ser introspectivo, angustiado com a sua própria
condição existencial, ele vive inserido no contexto social isolado
nos castelos ou nos porões. 9 A imagem angustiada e apaixonada do solitário vampiro
traduz com fidelidade os sentimentos daqueles que mesmo inseridos no contexto
social, vivem entre as luzes e as trevas. Além do visual, estes e outros
elementos praticamente definem a identificação dos góticos
com o vampiro.
7-O ESTILO GÓTICO E O CINEMA
Nesta rápida viagem pelo Universo Gótico chegamos ao século
XX e obrigatoriamente temos que dar uma passada pelo cinema Expressionista
Alemão.
Sem demérito algum às demais escolas cinematográficas,
é bem pouco provável que outros clássicos produzidos pelo
cinema representem com tanta propriedade o estilo gótico contemporâneo,
como aqueles produzidos pelo movimento Expressionista alemão.
Filmes produzidos na primeira metade do século XX como “Nosferatu”,
“O Gabinete do Dr. Caligari”, “Metrópolis”
entre outros, são clássicos obrigatórios para a compreensão
deste movimento. 10
8-O GÓTICO E O EXPRESSIONISMO
Podemos responsabilizar diretamente a tendência artística do final
do século XIX e início do século XX, denominada Expressionismo,
como propulsora do estilo Gótico até as últimas
décadas do século XX.
No vasto universo das Belas Artes o Expressionismo determinaria
a valorização do “eu”, a expressão
máxima dos sentimentos; as sensações ou impressões
pessoais dos artistas em oposição à rigidez do Racionalismo
científico.
Entre os grandes conflitos da primeira metade do século XX, pintores
como Picasso e Dalí dariam cor e forma às emoções
e reações subjetivas do Caos; às distorções
do Capitalismo Imperial e a perspectiva apocalíptica da sociedade
de Consumo Bélica. 11
A expressão obscura da vida em sociedade haveria de chegar à música,
era apenas uma questão de tempo.
9- O PÓS-PUNK E AS ORIGENS DO GÓTICO:
O PUNK NÃO ACABOU...
Não, o Punk não acabou. Surgiram novos grupos, novos estilos se
mesclaram aos estilos anteriores e fizeram surgir outros movimentos com características
próprias.
O cenário internacional da música da década perdida ficaria
delimitado entre o Punk inglês e o New Wave Norte Americano.
É sobre o influxo da influência Alemã e dos new romantics
da década de 80 que surgiria o Gótico. 12
A sonoridade pulsante e anárquica temperada com partículas de música Erudita, mesclada a elementos sombrios de introspecção
demarcaria o surgimento de um novo estilo.
Nesta zona de intersecção podemos visualizar bandas como:
Bauhaus; Joy Division; The Cure; Siouxsie and the Banshees; The Cult; The
Sisters of Mercy; The Mission; e outras tantas não menos importantes,
dando origem ao estilo denominado como Gothic Rock.
A partir do Gothic Rock surgiriam novas bandas e novos estilos como
o Eletro-gótico e o Industrial demarcando a influência
do gótico na década de 90.
10- DO DARK AO GÓTICO
A anatomia do movimento Gótico Paulista. A expressão “DARK” foi adotada
pela imprensa para designar uma tribo singular na capital paulista entre os
anos 1982 e 1985. 13
Os integrantes desta nova tribo usavam roupas predominantemente pretas como
referencial básico e eram afeitos a músicas com construções
mais melódicas e intelectualizadas, características do som das
bandas inglesas do Pós-Punk.
Costumavam freqüentar casas como o Madame Satã, Napalm, Rose
BomBom, Espaço Retrô, Carbono 14, Treibhaus e outras localizadas
preferencialmente na parte mais antiga do centro da cidade.
No plano internacional eram simpatizantes de bandas como “The Cure”;
“Joy Division”; “Siouxsie and The Banshees”
e Cia Limitada.
No plano nacional curtiam bandas da corrente denominada como “Rock
Paulista”, como por exemplo o IRA, Voluntários da Pátria,
Mercenários. Número 2, Cabine C, As garotas que Erraram entre
outros.
Em sua maioria as falanges desta nova tribo eram formadas por jovens de classe
média, estudantes do nível secundário ou universitários,
com uma base referencial bastante distinta dos integrantes do movimento Punk.
Progressivamente a nova tribo foi incorporando novos elementos ao conjunto visual,
sobretudos pretos, botas e roupas clássicas e uma série de acessórios
da cultura pagã, como por exemplo o pentagrama.
Ao mesmo tempo as músicas dos grupos referenciais ficam mais longas e
complexas, contemplando citações ou referências a filmes
e à literatura gótica do século XIX.
Também foram incorporados outros assuntos de interesse comum, como o vampirismo, o fetichismo e Neo-Paganismo. 14
Assim, como inevitável corolário do Pós-Punk consolidaria-se
o movimento conhecido como Gótico.
O movimento gótico paulista também se caracterizaria pela manifestação
de uma profunda insatisfação com o estado geral das coisas, por
uma experiência de “crise”, (principalmente a falta
de perspectivas) e a busca pela inclusão social por vias alternativas
ou pelo circuito denominado como “Underground”.
O movimento diferencia-se dos movimentos juvenis das gerações
anteriores pela inexistência de propostas de transformação
da sociedade. Não há a pretensão de transformação
da sociedade num modelo idealizado, tão somente através da expressão
sombria e carregada (onde o principal veículo é a música),
busca-se uma forma de inserção no contexto caótico da cidade
e de espaços delimitados. Era como se aqueles jovens dissessem: “Também
estamos aqui...”
O movimento gótico paulista traduz-se como uma atividade genuinamente
urbana, tendo o centro antigo da cidade como seu ponto de referência maior.
São nos porões de antigos casarões do centro, nos subterrâneos
da metrópole caótica que os góticos se encontram para dançar
e fazer as suas conexões.
As tribos góticas também marcam presença aos sábados
à tarde nas grandes galerias do centro, sobre tudo na galeria do rock
em lojas góticas como a PROFECIAS, que promove encontros semanais.
Os cemitérios, igrejas e casarões em ruínas são
aspectos arquitetônicos valorizados pela comunidade gótica.
Os góticos são sociáveis e não alimentam conflitos
entre si tampouco, com tribos de outros movimentos.
A comunidade mantém um senso de identificação forte, mas
dialogam com facilidade com membros de outros movimentos mais herméticos.
Observa-se que as casas noturnas góticas raramente apresentam problemas
graves com a segurança.
Em alusão ao sangue, o vinho é a bebida preferida dos góticos
e o sobretudo preto é peça indispensável no guarda roupa
gótico.
Há uma forte orientação para a liberdade sexual e o homossexualismo
é aceito com naturalidade pela maioria dos integrantes do movimento.
11- OS GÓTICOS E A RELIGIÃO
Nem todo gótico acredita em Deus, muitos são católicos,
mas a uma grande parte dos góticos se interessa por religiões
pagãs e ocultismo.
Seja porque as religiões representam um poder opressor estabelecido,
seja porque o sincretismo é uma característica do movimento gótico,
há uma forte tendência ao paganismo entre os membros do movimento.
Modernamente, constatou-se que um grande número de góticos tem
se tornado adeptos da Wicca ou do neopaganismo. 15
Noutro aspecto, as latentes conexões com o vampirismo e a prática
da magia conferem acentuadas características pagãs ao movimento.
12- O GÓTICO E O SÉCULO XXI
Nos anos 90 vimos o Rock se revitalizar na roupagem do Heavy-metal,
ao mesmo tempo em que o gótico ganhava oxigênio sob o influxo do
“Doom Metal”, do vigoroso Black Metal e do EBM.
As casas góticas paulistas que haviam definhado durante a década
de 90 parecem ressurgir como opção do universo “Underground”.
Nos parece que os reflexos negativos da era da globalização estão
despertando nas novas gerações um sentimento muito parecido com
a falta de perspectiva tão latente nas gerações da década
perdida.
As pistas de dança dos velhos porões do centro de São
Paulo voltam a ficar cheias.
Há uma notória diversidade de estilos desde de clássicos
como “Type o Negative”, passando por “Lacrimosa”,
“Theatre of Tragedy”, “Tristania”,
etc.
Ainda que alguns questionem a vitalidade do gótico enquanto movimento,
sobre a alegação da ausência de projetos ou objetivos de
transformação, pode-se observar uma latente agitação
neste universo.
Não há dúvidas de que a manutenção das atividades
do movimento gótico centra-se na esfera de lazer e do consumo, todavia,
o fenômeno da globalização cristalizou realidades como a
internet, multiplicando a interação entre jovens de todas as partes
do mundo em torno dos respectivos assuntos de interesse comum.
Entre os góticos a intensidade do fenômeno não é
diferente, sites sobre a cultura gótica em geral multiplicam-se pela
rede, tornando ilimitada a profusão e o acesso a informações
sobre as atividades deste circuito.
Todas as semanas grupos e casas noturnas articulam-se na promoção
e na realização de eventos temáticos, conquistando cada
vez mais um número maior de adeptos e simpatizantes do gênero.
Ao que parece, a capacidade de adaptação e assimilação
dos novos estilos trouxe uma certa maturidade ao movimento, que acaba de completar
20 anos de existência, entre nós.
O futuro e a incerteza são irmãos que caminham de braços
dados, mas, definitivamente o gótico demarcou sua presença e seu
espaço na sociedade cosmopolita Paulista e dificilmente deixará
de ser notado.
By Desedérium
Editado e redigido por: Equipe Gothic Castle.
___BIBLIOGRAFIA_________________________________
1. Cf. Antônio
Geraldo da Cunha; Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua
Portuguesa, pp. 389 e 391.
2. Cf. Gilberto Cotrim; História
e Consciência do Mundo, a respeito da formação dos reinos
bárbaros, p. 132 e ss.
3. Idem; Cotrim
demonstra aspectos do desenvolvimento da cultura gótica, ressaltando
a sucessão arquitetônica do românico pelo gótico e
a influência religiosa nas manifestações culturais do homem
medieval, p. 174 e ss.
Filmes indicados para o tema: Hamlet (1948) e o Nome da Rosa (1986)
4. Idem; Cotrim
estabelece as principais características que marcaram o renascimento
Cultural Europeu, p. 212 e ss.
5. Douglas Tufano;
Estudos de Literatura Brasileira, pp. 47 e ss.
6. Frankenstein;
Baseado no romance de Mary Shelley, Frankenstein (1931) é considerado
um clássico do gênero horror. O filme,
nitidamente influenciado pelo expressionismo alemão, consegue demonstrar
com fidelidade o clima gótico. Disponível em vídeo.
7. O Poço
e o Pêndulo pode ser visto em vídeo em produção da
VTI HOME VIDEO (1991), trata-se de requintada versão do
clássico conto de Egdar Allan Poe.
8. Dracula;
O filme Dracula (31), também, disponível em vídeo é
uma versão que representa com fidelidade o famoso romance de Bram Stocker.
9. J. Gordon
Melton; O livro dos vampiros. Pp. 355 e 356. Destacando-se as conexões
entre o gótico e o vampirismo.
10. A continental
Home Vídeo possui vários clássicos do movimento expressionista
alemão na versão vídeo.
11. Referência
do Autor à obra Guernica de Pablo Picasso.
12. Op. cit.,
p. 334
13. Helena Wendel
ABRAMO; Cenas Juvenis – Punks e Darks no espetáculo urbano, nos
oferece uma abordagem sociológica sobre as origens do movimento gótico
em São Paulo. pp 115 e ss.
14. Mick Mercer;
“The Hese Files – The Goth Bible”, o texto registra temas
como o vampirismo, fetichismo e Neopaganismo, considerados como incorporados
à cultura gótica.
15. Depoimento
da proprietária da loja gótica paulista “PROFECIAS”